quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

No papel tudo fica diferente

No início do ano passado escrevi uma lista de dez itens para fazer em 2011. Coisas que queria (ou precisava) colocar em prática ao longo do ano. Deixei ela ali quietinha nos 365 dias seguintes (alguns a mais, na verdade) e hoje eu a vi por acaso. Nem ia compartilhar aqui, pois há coisas que considero - ainda que sem razão aparente - pessoais, mas a súbita necessidade de fazer um balanço escrito e registrado me venceu. Cumpri menos do que gostaria, mas pelo menos vejo que consegui alguma evolução em todos esses microplanos, ainda que ínfima. No final, o saldo foi positivo. Bem positivo.

1 - Viagem ao exterior
Ah, eu juro que ela ia dar certo. Tirei passaporte, comprei um megalivro pra planejar os destinos, montei um roteiro sensacional para 20 dias de exploração turística em terras europeias, comprei as passagens aéreas e até reservei alguns hotéis. Aos 45 minutos do segundo tempo, os planos mudaram drasticamente: mudei de cidade, assumi outro emprego e as metas tiveram de ser adiadas por tempo indeterminado. Ainda guardo o roteiro para uma ocasião futura, quem sabe em 2013.

2. Aulas de espanhol
De fevereiro a setembro, isso até funcionou. Pelo menos saí do nível Espanhol Iniciante 000 para passar para o Iniciante 001. Da mesma forma como a viagem, houve uma interrupção drástica, pagamento de multa do plano contratado, mudança e... bye bye español.

3. Pós-graduação
Essa meta ainda está de pé, parece. Passei na seleção pra pós-graduação da Unicamp em Jornalismo Científico, ingressei no curso achando que era uma coisa e me surpreendi (negativamente) ao ver que era outra. Mas isso é papo pra reclamação de boteco. Ao final do ano, dois terços da ementa já tinham sido cursados e agora só falta um semestre pra obter meu diploma lato sensu (claro, se os professores concordarem em me receber apenas duas vezes por mês. Afinal, o Rio não é Vinhedo e não está tão próximo assim de Campinas).

4. Academia
Hahahahaha. Essa virou piada. Aliás, essa é uma piada totalmente sem graça que já faz parte da minha vida há um tempinho. Tá, pra não falar que não fiz absolutamente nada saudável em 2011, fiz natação durante um mês. Aí não renovei o contrato, não paguei mais e as portas da academia se fecharam pra mim. E a desculpa - até um pouco verdadeira - da mudança para o Rio foi a gota d'água pra "deixar pra depois". Por aqui eu tenho o calçadão pra caminhar todo lindo fim de tarde. Ã-hã.

5. Ler mais
Eu estou para a leitura assim como São Pedro está para a seca em São Paulo. Inconciliável. Desculpas, desculpas e mais desculpas. Muito blá-blá-blá pra falar que não consegui ler mais do que uns cinco livros no ano. Absurdo. Meta mais do que descumprida. O mesmo vale pras minhas séries favoritas de TV, os filmes, o cinema, a cultura: largados às traças! 

6. Frilas
Até que esses estão rendendo. Poderiam estar melhores, mas não posso reclamar.

7. Concurso público
É, esse deu certo. E mudou tudo ao meu redor.

8. Projetos 'bloguísticos'
Ih, só de ver quanto tempo eu fiquei sem atualizar isto aqui já dá pra ter uma ideia do quanto esses projetos foram pra frente. Mas vamos lá, um dia eles saem do nível imaginário... :)

9. Outras viagens
Ah, como eu sonho, né? Meus pezinhos estão sempre lá no alto, esperando serem puxados para baixo. Além da super-mega-master-viagem que seria feita em novembro, minha listinha pra 2011 era bem singela: Ubatuba, São Paulo, Foz do Iguaçu, Ilha Grande, Goiânia, Campos do Jordão, Rio de Janeiro, Brotas... Bom, fomos pra Ubatuba, São Paulo, Ilha Grande e Goiânia; e nos mudamos para o Rio de Janeiro. Não foi de todo ruim. =)

10. Saúde
Estava (e ainda estou) precisando de um check-up geral. A listinha dos "istas" estava grandinha no início do ano passado. Diminuiu, é verdade, mas já preciso voltar ao oftalmologista e ainda não fui ao cardiologista, ao ortopedista e ao odontologista. Vem cá, preciso mesmo ter este item na minha lista?  


Bom, vou repetir a experiência e escrever as metas deste ano. Começo de 2013 eu aviso como me saí!

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Andanças

Passei tanto tempo longe, caçando o tempo que estava cismando em escorrer pelos dedos, em dias rápidos e turbulentos, que deixei o esquecimento vencer as boas histórias que vivi desde o último post. Não foram poucas. De lá pra cá mudei. Mudei de casa, de emprego, de cidade. Cancelei férias e adiei sonhos. Vim pras lindas terras cariocas, com seus contrastes de misérias e riquezas, seu trânsito absolutamente intransitável e sua (des)prestação de serviços enlouquecedora. Consegui abrigo provisório e mudei-me para um teto alugado. Da sacada, o mar imenso foi meu consolo para tantas adversidades iniciais.

Disso tudo, não sentirei falta. Dos amigos feitos na fria Campinas - e fria mais pelo clima do que pelas pessoas -, desses, sim, guardarei saudades. A certeza, neste ponto, é que mudar não é para qualquer um. Exige persistência, paciência, determinação e, acima de tudo, coragem. Coragem por virar um livro já conhecido e iniciar outro, ainda com as páginas totalmente em branco. Coragem por enfrentar o infinito que se abre à frente dos olhos e deixar o conforto e o aconchego das situações sistematicamente repetidas ao longo dos anos.

Olho para trás e vejo que venci os dias de incertezas e medos. Na verdade, já havia vencido isso anos atrás, quando deixei com lágrimas a terra em que morei por vinte e tantos anos. Foi sofrido. Mas se há algo verdadeiro nessa história toda é a imensa facilidade que descobri ter para me adaptar a novas situações e a maravilhosa capacidade de ultrapassar limites quase sempre imaginários. É fato: a gente consegue praticamente tudo que quer.

E cá estou eu agora, no Rio de Janeiro, a cidade do Cristo de braços abertos mais famoso do mundo, acumulando fotografias de paisagens lindíssimas e recortes de estresses cotidianos. Vendo nos sinaleiros os meninos descamisados vendendo bala, nas mesmas esquinas em que prédios gigantescos somam alguns milhões de reais no concreto de seus andares de frente para a praia. Não, não vi ainda o retrato da violência urbana - ele continua (e espero que assim permaneça) uma imagem recortada dos jornais. Cá estou na terra do "esse" chiado, da mandioca que virou aipim e do trânsito que anda em ondas, em uma espécie de lei do mais "eixperto". 

Mas como boa paulista-que-gosta-de-casa-e-sossego, vou cair fora no Carnaval. Mangueira, Beija-Flor, Vila Isabel, Imperatriz e bloquinhos de rua espalhados por todos os cantos da cidade estão fora dos meus planos. Vou é arrumar as malas pra Goiânia, que de tradição carnavalesca não tem nada!

"... acumulando fotografias de paisagens lindíssimas e recortes de estresses cotidianos..."


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Intensidade

Eu quero abraçar o mundo. Quero ter braços e mente capazes de destrinchar o mundo. Colher frutos, plantar flores, digerir informação e me alimentar de conhecimento. Quero que meu sono seja raro, pontuado de projetos em desenvolvimento e de conquistas realizadas. Quero me alimentar culturalmente, conhecer o mundo ao vivo, descobrir novos lugares, sabores e cores. Uma coisa por vez não serve para mim. Nunca serviu. Quero tudo ao mesmo tempo. Hoje, agora, já. A mim não me serve o morno, o meio termo. Quero tudo, quero intenso.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Eu vou abraçar o mundo!

Eu sou saudosista. Confesso. Tanto que o passado é um dos meus temas favoritos. Mas isso não tira a glória do  meu presente. Um presente. Claro que eu sempre tenho um mundo de coisas pendentes, pois adoro tentar abraçar o mundo com apenas meus pequenos braços, mas, independentemente disso, eu aprendi a ser feliz. Feliz não no sentido de sorrir o tempo inteiro e parecer uma pessoa alegre - e até irreal -, mas feliz no contexto mais amplo de felicidade: aquele que é uma soma de todos os altos e baixos, de todas as alegrias e tristezas.

Uma decolada, uma derrapada, um escorregão, um beijo, um abraço, um teto aconchegante, pessoas maravilhosas ao meu redor, pessoas nem tão maravilhosas ao meu redor, um telefonema de alguém distante, um bilhete de alguém mais próximo... Ok, no fim, o balanço é positivo. Sim, eu sou feliz.

Eu gosto do que conquistei, gosto de quem sou, gosto do que penso. Não sou absoluta, é verdade - e, sim, preciso melhorar muitas coisas em mim. Mas quem não precisa? Eu não tenho muitas opiniões fechadas, não sou a dona da razão e nem quero ser. Só quero respeito. Gosto de discussões saudáveis. E não tenho tanta vergonha assim de admitir que não sei muito bem algumas coisas que deveria saber. Quem foi que disse que jornalista tem que saber de tudo? Quem foi que disse que é inaceitável não saber do que está acontecendo no mundo, no País, no estado ou na cidadezinha que bem poderia ser o fiofó do mundo? Sinto muito, mas estreitas são as pessoas que pensam assim.

Tá, já sei. O texto tá bem costurado, mas já mudei de assunto umas três vezes, né? Estou devaneando. É que estou enérgica, estou com vontade de fazer tudo que não fiz até hoje de uma vez só. E sou apenas uma. Tenho apenas duas mãos. E meus braços realmente não são tão grandes quanto eu gostaria que fossem!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Cada um no seu quadrado

Ah, sim. Eu gosto do meu espaço. Eu gosto de ter um quadrado inviolável ao meu redor, sem que ele seja invadido por pés apressados ou por cotovelos vorazes. Tá, tudo bem que em um show de heavy metal fica meio difícil manter intacto esse espaço só meu, mas eu não gosto de contatos estranhos, especialmente de braços e corpos suados. E não me venham chamar de fresca. Só não quero ser obrigada a fungar no cangote dos outros e a sentir uma respiração desconhecida na nuca. Não é tão difícil assim respeitar o espaço alheio, vai...

Em todo caso, acho que é melhor evitar as pistas dos megashows, a fim de manter o bom humor inalterado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Sobre excessos, comida e sapatos


Aquela dorzinha de cabeça chata com que acordara lembrava a ela os excessos da noite anterior. Sua fase de bebedeira exacerbada já havia sido deixada para trás, nos distantes anos da faculdade, mas ainda assim, os dois chopps acompanhados por bolinhas de provolone à milanesa não caíram bem. Depois, sem resistir à maravilhosa torta de limão - a mais incrível que já comera em toda a sua vida, crocante, azedinha e incrivelmente saborosa! -, ela lembrou-se das promessas de início de ano e do sempre adiado plano de começar uma dieta efetiva e de acabar-se fisicamente em uma academia.

Mais uma vez a gula vencera. É que ela sempre prezara os comes e bebes e, mesmo depois de alguns anos "de mal" com a balança, ela ainda não se acostumara ao fato de não ser mais aquela menina magrela que podia comer de tudo a qualquer hora.

Durante o dia, ela até que lidava bem com seus excessos - deixava de lado o refrigerante (ou o trocava por água), comia quase que só salada acompanhada de um grelhadinho. Hummmm. Mas era à noite que o bicho pegava. Pão, muito pão. Queijo, muito queijo. Coca-cola, muita coca-cola (uma das maravilhas da humanidade, convenhamos). E até que era conformada com as consequências de toda essa ingestão calórica, pois era feliz. Muito. Isso que importava.

Seu teto desabava mesmo quando experimentava seus lindos vestidos de festa ou quando precisava passar horas escolhendo roupas nas lojas. Passou a odiar as saídas para comprar roupas. Mas gostava de comprar sapatos. Sim! Se pudesse, teria uma centena de pares. Mentalmente, já contabilizava nos dedos quantos novos sapatos e sandálias PRECISAVA urgentemente. Tinha a rasteirinha, a de salto médio, o fechado confortável, a sapatilha. Tudo em preto, bege ou marrom. Ah, se desse, podia ser um de cada, de todas as cores.

Universo complexo esse feminino, não?

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Welcome 2011

So many things I want to do, so may places I want to go and, still, here I am. Frozen in time, staring at a big blank screen while I go through a mental list of things I want to do differently this year. Enter 2011 and the plans remain the same, some a little more urgent; others a little farther. Recently I did a top-5 list of important things that must change since now. I already forget one. Perhaps it was not so important, but the reality is: I need to put this on paper. I need to clear my mind and find time to do what I have to do. 

Basicaly, I have the same dreams of everyone (I guess): read more; watch more my favorite tv series; study a little bit more (I really want to increase my bs, practice my English and learn Spanish), earn money so I can travel the world, love and be loved more and more and always. 

Althought all these resolutions for the new year - all of it a blank page just waiting to be written -, I am here now, writing at this blog, while I should be reading about science and technology. And education. And journalism. 

Yeah. 2011 began. 

Welcome.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Satisfação


Lembrar do passado sempre gera certa nostalgia. Mas é muito gostoso quando as lembranças trazem aquele sorriso espontâneo no rosto e nos fazem perceber que tudo o que passamos e todas as pessoas que passaram por nossas vidas contribuíram, de muitas formas, para sermos quem somos hoje.

Às vezes fico horas de olhos fechados tentando encontrar o sono perdido e nesses momentos tento incansavelmente descobrir qual é minha primeira lembrança. Em geral, os sonhos acabam me abraçando e os olhos fechados tornam-se a abrir somente no dia seguinte. Mas às vezes eu recordo pequenos fragmentos, mesmo não sabendo ao certo se lembro mesmo deles ou se são apenas aquelas imagens que perseguem a mente de tanto serem vistas em fotografias já desbotadas, tiradas em dias sobre os quais apenas os outros contam.

Se fizer bastante força, consigo lembrar de pequenos detalhes, como o grito de "me espera" ao pai e à mãe na hora de dormir, ou os desenhos com giz na calçada de casa, embalados por uma canção inventada implorando para que o sol não cedesse lugar às nuvens nos dias em que ficava de molho na velha piscina de plástico. Até consigo lembrar dos primeiros versos, cantados desafinadamente aos gritos: "Sol, fica aqui só mais um pouquinho, que a noite já vai chegar..."

Lembro da visita à fazenda de jabuticabas ali perto de Goiânia e da estradinha que pegávamos para chegar em casa - hoje uma larga avenida asfaltada e cheia de casas e movimento. Lembro dos nomes dos coleguinhas do pré-escolar e até consigo ver meus passos voltando da escola debaixo da sombrinha da mãe, andando pelas ruas ainda de chão batido do condomínio onde morava. Lembro de caminhar em fila no dia em que quebrei o braço, lá pelos cinco anos, e lembro dos Beatles cantando no toca-fitas do meu pai, enquanto ele montava suas maravilhosas máquinas voadoras.

Lembro de amassar carrapatos com pesos de chumbo. Lembro de alimentar formigas com açúcar e de montar corridas entre bichos de goiaba. Lembro de passar os Natais em família. Lembro do trajeto de todos os dias a caminho da escola. Lembro da fascinação por subir em árvores. Mas ainda mais nova, creio, lembro de rabiscar os cartões de computadores que meu pai trazia para casa do trabalho, fingindo ser diretora de uma empresa muito importante - a Jungis Barrida.

É, meus caros... eu era criativa. Tão criativa que cheguei a inventar algumas regras gramaticais complexas o suficiente para, hoje em dia, ter dificuldade em entender o que poderiam significar para uma criança. Criei novas classes morfológicas - os gramafos e o alamimissim. E ensinava todas as suas regras para alunos imaginários. Também adorava passar horas brincando com velhos talões de cheque e panfletos bancários. Sempre que ia ao banco com a mãe ou o pai, saía catando toda a papelada informativa sobre investimentos, cdb, rdb e coisas que os bancários devem conhecer.

As bonecas não eram minha preferência - só bem mais tarde, quando descobri as Barbies. Mas, quando criança pequena, gostava mesmo era dos carrinhos. Papai montava um autorama gigantesco no corredor lateral lá de casa - e lá íamos nós e os vizinhos com nossas lotus, ferraris ou mclarens competir por horas a fio. Gostava dos bichos de pelúcia Anselmo e Rodolfo (era isso mesmo?) e adorava o João Neme. Tinha também a Matilde. Não lembro muito bem dela, uma boneca de pano meio feinha - e talvez por isso tinha tanta dó dela que nunca consegui livrar-me de sua companhia.

Aliás, é interessante como é mais fácil lembrar das sensações e impressões da infância do que das imagens propriamente ditas. Recordo da sensação de dúvida se devia correr para os braços da mãe ou do pai, que me torturavam chamando-me os dois ao mesmo tempo, cada um de um lado da sala. "Vem com a mamãe / Vem com o papai". Tortura, né? Por outro lado, há imagens soltas, como a velha cadeira de vime que ficava no terraço de casa, o chapelão mexicano que meus pais ganharam ou o sapo de pano que minha avó me deu (acho!) e que eu fazia de travesseiro.

Anos mais tarde, lembro que achava o máximo brincar na rua com a molecada, correr no pique-pega ou no pique-esconde, pular mamãezinha da rua ou aventurar-me na bandeirinha. E aqui faço um parêntese: hoje em dia a criançada não sabe o que é infância verdadeiramente feliz. Da escola pro inglês, de lá pra aula de música ou pro balé e, em casa, videogame. Tá, eu também gosto de videogame, mas em nenhum momento essa fase foi melhor do que a das brincadeiras ao ar livre. Os dias de videogame mesclaram-se como uma lembrança única, como se fossem apenas um dia. Por causa da repetição, sabem? O cérebro não armazena as pequenas diferenças das coisas que são feitas todos os dias.

Quando criança, também gostava muito de brincar sozinha. Mas foi dessa época que, entre fases "de mal" e "de bem", veio uma das minhas amizades mais sólidas e sinceras. Depois veio a fase dos barzinhos, das confidências trocadas em bilhetinhos. Veio o vestibular, a faculdade e a descoberta que o caminho não era bem aquele. Veio a Computação e alguns bons amigos. Veio o Jornalismo, com algumas boas amigas e a profissão que elegi para seguir.

E o tempo, que começou engatinhando, passou a andar cada vez mais rápido e hoje corre desenfreado. Já não vejo todos os dias as pessoas que me fizeram ser o que sou; já não encontro os mesmos amigos que fizeram parte de tantas fases da minha vida; já não sou mais criança. Mas olho para trás com orgulho. Com saudades. Hoje, minha porção infantil contenta-se com quebras-cabeça e recordações. E ela continua aqui, só esperando para alguém a lembrar como é que se faz uma cantiga de roda ou se pula amarelinha.

***
"É bom olhar pra trás e admirar a vida que soubemos fazer
 É bom olhar pra frente, é bom, nunca é igual, 
Olhar, beijar, ouvir, cantar um novo dia nascendo"
(Nando Reis)

domingo, 17 de outubro de 2010

Retrospectiva


O mês era agosto quando amontoei as roupas, despejei-as no porta-malas do carro e peguei a estrada rumo a Campinas/SP. Os planos da mudança já tinham sido iniciados poucos meses antes e, após aquelas chatas e necessárias tramitações com mudanças e organizações mil, enfim falei tchau com os olhos marejados, deixando pra trás uma cidade que havia me abrigado por quase 30 anos. Ainda não amanhecera - e o breu da noite envolveu o caminho até que a alvorada enfim estendeu seus braços, sempre mais acolhedores e dotados de esperança do que a sombria escuridão.

Quase mil quilômetros. Três estados diferentes. Amanhecer, sol e chuva. Tudo isso marcou o trajeto. Vários Brasis em um só Brasil. Cidades grandes, cidades pequenas, currutelas e metrópoles. Aqui há um pouco de tudo, não? E basta viajar só um pouquinho para perceber os contrastes - um município calçado com paralelepípedos, uma vila que sobrevive do comércio à beira da estrada, uma cidade afundada em placas mal escritas ou apagadas pelo tempo. Em São Paulo, a privatização das estradas de rodagem pelo menos ameniza a dor da distância que se aprofunda. Da paisagem ressecada e contorcida do cerrado, surgem amplos campos verdes e plantações gigantescas - milho, cana de açúcar, café, laranja... O Brasil é mesmo um país maravilhoso!

Enfim, Campinas - uma cidade grande, com centenas de anos em suas costas. Guarda a proximidade com a megalópole paulista como uma vantagem e ao mesmo tempo ainda conserva um quê de interior. Cidade de estudantes, atraídos por uma das mais conceituadas universidades do País, é também um município jovem e cheio de vida, cujas vias principais seguem cheias como veias que interligam cada um de seus pontos. Como toda cidade, tem seus cinzas predominantes sobre os verdes ou azuis. Mas guarda algumas agradáveis surpresas entre os parques e os bares.

É cidade do R puxado, de gente que luta e gera riquezas, de cantos sertanejos e de bares inflamados. É apenas mais um aglomerado deste País gigante, que, tal como as demais regiões com mais de um milhão de habitantes revela pontos positivos e negativos. Resta a mim e aos demais campineiros - de ocasião ou de nascença - desbravar o melhor que pode oferecer. Eu estou fazendo a minha parte. E estou gostando muito.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

despedida

Oi, calor infernal. Já vi que vai rechear meus dias com um sol intenso e terrível.

Tchau, friozinho gostoso. Já estou com saudades...

***
P.S.: Não, isso não é mau humor de quem é ranzinza. É apenas uma constatação de quem prefere muito mais trabalhar bem vestida com casacos e botas do que com regatas, sandálias e suor.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Sobre o Bob Dylan e uma cadela

Já não me sinto tão perdida ao andar pelas ruas de Campinas. Já sei que o Centro de Convivência fica bem ao lado de onde trabalho e também sei andar um pouco mais além da Lagoa do Taquaral. Já aprendi a pegar as estradas dos arredores e encarar as milhares de bifurcações e viadutos como naturais. Já sei chegar sozinha ao Iguatemi e ao Galeria. Já fiz compras em pelo menos três supermercados diferentes. E hoje, voltando do trabalho por um caminho ainda não percorrido, descobri um trajeto com um pouco menos de trânsito - embora eu não veja o trânsito daqui como um bicho de sete cabeças.

E tudo isso é para falar que voltei para casa hoje escutando algo que não ouvia há muito tempo. Depois de uma semana com um CD nacional rodando sem parar, resolvi trocar e peguei o primeiro que caiu à minha mão. E lá veio o Bob Dylan, com sua voz inconfundível, seu tom meloso e sua gaita estridente. Veio a primeira música e passei para frente - muito chata (que me desculpem os fãs, mas nem sei o nome). Depois, Blowing in the Wind. Um show.

Mas a que mais me fez lembrar de uma época em que eu simplesmente odiava Bob Dylan foi a terceira faixa - The times they are a-changin. Odiava não porque achava ruim, mas porque minha mãe havia comprado aquele conjunto de LPs Biography e simplesmente o escutava o dia inteiro. Sem saber inglês, eu já sabia todas as letras de cor. E ela escutava de um lado, com o som a todo o volume, e minha cadela (saudosa Bonnie) uivava do outro. A cada gaitada, um uivo. A cada troca de faixa, um minuto de silêncio.

O agudo da gaita devia machucar os ouvidos dela, mas que era o máximo ver aquele fuço comprido se esticando para o alto e fazendo biquinho, ah isso era.

Lembrei disso e deu saudade. Viram como a vida da gente é feita de pequenas lembranças que valem muito?

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Aos que querem lembrar da música:
http://www.dailymotion.com/video/x2lfz3_bob-dylan-times-they-are-achangin_music

Aos que querem conhecer a Bonnie:












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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um pouco de saudades de São Paulo


São Paulo é um ninho de mafagafo, um formigueiro. É um universo de excessos. De gente e de carros. De riqueza. E de pobreza. De luxo nos arredores da Paulista e de lixo em meio aos edifícios pichados nos labirintos do Minhocão. De engravatados que desfilam pela Faria Lima em seu horário de almoço e de esfarrapados que juntam seus trapos ao catar papel durante todo o dia em todo canto.

É uma mistura de diferentes matizes de cinza, de tribos que se acotovelam em meio às estações lotadas de trem e metrô. É um aglomerado de construções, viadutos, túneis e pontes. É uma cidade sem relógio, que funciona ininterruptamente, seja manhã, tarde, noite ou madrugada. É lugar de poucas cores, pouco verde, pouco azul.  No centro, árvores dão lugar ao concreto. No céu, o azul é substituído por uma estranha tonalidade resultante da poluição. O horizonte é esfumaçado, meio cor de rosa, meio cinza escuro.

São Paulo é um caos, mas é um caos organizado. Os motoristas se xingam, mas conseguem desviar uns dos outros. As motocicletas buzinam, em uma intensidade que chega a incomodar os tímpanos; fazem fileiras em meio aos carros e vão tecendo uma teia por entre os congestionamentos. Os pedestres se amontoam para atravessar um cruzamento, mas andam a passos largos entre si, ultrapassando os que apenas andam a observar as muitas vitrines espalhadas nos mais inacreditáveis espacinhos. Na Sé, há trânsito de gente; não de carros.

São Paulo é minha terra natal, mas não foi ela que me criou. Foi apenas reduto das minhas férias e das passagens do interior do Brasil rumo às praias que são minha paixão. Mas é cidade que abriga sem questionar, que acolhe desesperados e endinheirados. É palco de rica cultura, de espetáculos tradicionais e controversos, sejam eles reais ou fictícios. É a cidade do sanduíche de pernil e do incrível pão com mortadela do Mercado Municipal. É o local do skate no Parque do Ibirapuera, dos belos jardins do Museu do Ipiranga e do imenso vão livre do Masp.

***

Só tenho boas lembranças das muitas temporadas que passei por essa cidade cinza que também é um pouco do meu lar. Do trabalho maravilhoso no jornal O Estado de S. Paulo - e de uma equipe incrível e inesquecível -, das caminhadas pela Domingos de Morais e pela Paulista, das andanças em pleno centrão, conhecendo locais conturbados como a 25 de março, o Mercadão, a Sta. Ifigênia, o Teatro Municipal, o Pátio do Colégio, o Mosteiro de São Bento (e suas tumbas internas) e a Catedral da Sé.

São Paulo é uma cidade em mil. Sim, poderia ser mais bonita e bem cuidada, mas é um retrato bastante fiel da realidade que traça há 456 anos. E eu fico pensando: dentro desta cidade cabem quase dez da minha Goiânia.

domingo, 20 de junho de 2010

Ranzinzolina

As vuvuzelas são muito chatas. Eu quase chego a torcer contra nossa seleção canarinho só por causa dessa arruaça desmedida. O Brasil para por causa da Copa do Mundo. Isso é irritante. A estação de metrô da Sé, no centrão de São Paulo, parece que vai explodir de tanta gente - pessoas se movimentando de um lado para o outro, procurando fazer barulho e indo pra lugar nenhum, só mesmo para caçar um espacinho em frente às tevês.

Não, não sou tão ranzinza assim. Eu gosto de jogo do Brasil e até acho legal uma farrinha vez ou outra. Mas o fato de estar trabalhando não me ajuda a entrar em clima verde-amarelo. Fico irritada com essa hipocrisia que ocorre de quatro em quatro anos, com tanta gente exibindo orgulhosa a bandeira do País como se fosse o povo mais patriota do mundo. Convenhamos, não é bem assim...

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Olho comprido

Estou namorando uma blusa vermelha há uma semana. Todos os dias, a caminho do trabalho, ela pisca para mim, enviando mensagens telepáticas sobre o quanto sua lã será útil neste inverno e como ela pode dar uma renovada no meu guarda-roupa, com sua gola canoa e seu tricô trabalhado. Nessa relação platônica, o bolso já indicou ser contra: atento a qualquer impulso consumista um pouco mais exagerado, ele anda a me vigiar como um pai à filha caçula. Juro que, mesmo contrafeita, estou tentando aceitar seus argumentos inabaláveis, mas espero que a tal blusa consiga me deixar em paz e pare de me olhar com aquele jeitinho de 'me leva para casa'. Senão, a paquera definitivamente vai virar caso consumado.

sábado, 29 de maio de 2010

Cheia de dedos

Ameixa e beterraba. Uma combinação que eu adoro quando o assunto é a cor do esmalte. Pois hoje, uns seis meses depois de fazer as unhas pela última vez, decidi enfrentar o preço absurdo que as manicures paulistanas cobram e deixar minhas unhas bonitinhas novamente. Estou de férias da cozinha - então pude me dar ao luxo de escolher um vermelho berrante, que combine bem com aquele cachecol que vai me fazer companhia no inverno.

Aproveitei para aparar as pontas da cabeleira. Não suportava mais os nós e as pontas duplas, que se entretinham em tricôs que viravam verdadeiros ninhos de mafagafo. O saldo: duas horas no salão e R$ 40 a menos no bolso. Eu precisava. Saí de alma lavada e com os dedos esticados para não estragar o trabalho bem feito. Cheguei em casa, cabelos esvoaçantes ao gélido vento invernal, e, com todo o cuidado do mundo, estendi a roupa que havia ficado descansando na máquina esperando meu retorno. Estendi assim mesmo, sem me dar ao trabalho de colocá-las do avesso. Afinal, as unhas vermelhas merecem todo o cuidado e atenção do mundo.

Da cozinha, minha avó me oferece um pedacinho de chocolate - Talento com castanha-do-pará. E a tal guloseima, vingativa porque iria ser digerida alvoroçadamente por mais de uma boca gulosa, resolve se vingar: ao não querer ser quebrada para ser devorada, faz meus dedos escapulirem e irem direto rumo ao anel pontiagudo. O resultado? Alguns xingamentos desmedidos e uma unha vermelha estilhaçada, com uma imensa listra afundando o esmalte. Ai que vontade de esmigalhar aquele Talento!



***

Aos desavisados: estou em São Paulo, aproveitando o cinza da cidade para vidrar os olhos nas vitrines de inverno, recheadas de casacos lindos, blusas de lã convidativas e botas chiquérrimas. Não bastasse esse impulso consumista que tem me atormentado, estou editando um guia de shoppings da cidade - daqueles que dão vontade de visitar tudo e comprar mais ainda. Sorte que sou editora e não repórter, senão já teria sido vencida e as sacolas certamente seriam minhas companheiras diárias ao retorno para a redação.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Impressões campineiras - recomeço

Já estou em Campinas há oito meses e não escrevi metade das coisas que queria dizer a respeito da cidade. Não comentei que ela é bonita e arborizada, com muitas avenidas largas e diversos viadutos que nos deixam completamente perdidos e embasbacados. Não falei ainda dos agitos noturnos e nem de passeios possíveis. Mas ainda há tempo. Sempre há tempo.

Moro em um apartamento de quase 90 metros quadrados, com três quartos e duas pequenas varandas, sala, cozinha, área de serviço e despensa. E banheiros, claro. No condomínio temos uma excelente piscina e uma área bem bacana para festas e churrascos. A localização não poderia ser melhor. Aliás, pra ser melhor, só mesmo se fosse uma casa, com bastante espaço no quintal, suficiente para abrigar ao menos um rottweiller.

Área comum aqui do prédio

Aqui pertinho, na distância de menos de uma quadra, tem um pouquinho de tudo: verdurão, açougue, supermercado, farmácia (pelo menos duas), academias, papelaria, Subway, lotéricas. Aqui perto fica a rodovia D. Pedro I, que dá acesso à via Anhanguera e também à Dutra (principais estradas para São Paulo e Rio de Janeiro). De carro, é super fácil e rápido chegar ao maior shopping horizontal da América Latina (Parque Dom Pedro), à Unicamp, à PUC-Campinas e a um Carrefour, onde faço todos os meses minhas tradicionais compras de Amélia.

Do outro lado, mas a menos de dois quilômetros de distância, fica o Parque Portugal, que abriga a Lagoa do Taquaral, sobre a qual já falei em um post anterior. É um lugar muito bonito, com muitas árvores, tranquilidade e paz. O pessoal daqui sempre usa a pista interna do parque, ao redor do lago, para caminhar e correr. Fones de ouvido plugados, lá vão eles nos seus ritmos próprios, andando ou correndo, cantarolando ou aproveitando o momento de solidão para colocar os pensamentos em ordem. Já faz um tempo que não apareço por lá, mas confesso que é uma atividade bastante prazerosa (e saudável, saliente-se).

Daqui do décimo terceiro andar, minha vista é um tanto quanto limitada pelos muitos prédios ao redor - nenhum, no entanto, tão grudado a ponto de conseguirmos cumprimentar os vizinhos com um recatado olá. De vez em quando somos surpreendidos com alguma discussão mais alta ou com os gritos da molecada jogando basquete na quadra ao lado. Mas isso não é frequente. Frequentes mesmo são os gritos eufóricos das torcidas corinthiana e são-paulina, que ficam se enfrentando a cada dia de jogo com provocações engraçadíssimas esbravejadas pelas janelas.

À noite, às vezes temos a sorte de sermos contemplados com a visita da lua a nos espionar. Encantador.

 A lua vista da sacada aqui de casa

Durante o dia, quando está claro, é até possível ver partes de uma planície verdejante ao fundo dos prédios que nos circundam, por onde ainda hoje passam os vagões de uma solitária Maria-Fumaça. Seu apito sempre é ouvido aos sábados e domingos, quando a locomotiva segue o trajeto Campinas-Jaguariúna - uma tentativa de manter viva a lembrança dos tempos em que as ferrovias eram o único meio capaz de aproximar pessoas de cidades distintas. Engraçado como hoje temos possibilidades um tanto quanto mais avançadas e mesmo assim parece que estamos cada vez mais distantes.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Lá fora

O problema de voltar a atenção para os estudos é que o mundo lá fora fica cada vez mais distante - e tudo ou quase tudo que é feito ali recebe uma conotação culposa. A gente fica meio alienado - e aí entra mais culpa, especialmente por causa da profissão que carregamos registrada na carteira. Mas as boas notícias tendem a surgir em algum momento. Sim! E quando isso acontecer, prometo dar mais atenção a este espaço aqui - e contar um pouquinho mais da minha vida em uma cidade nova e cheia de coisas para serem descobertas. :)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Breve relato de uma fuga impensada

Ela partiu. Amontoou uma trouxa de roupas, deu um beijo no gato, um afago no velho cão e fechou a porta atrás de si. Não avisou ninguém. Enfiou na cabeça a ideia de que seria mais feliz sozinha do que compartilhando momentos medíocres ao lado de pessoas hipócritas que insistiam em lhe dizer que o melhor caminho era ser convencional. Retirou de uma velha agenda as economias guardadas meticulosamente e deixou pra trás seus breves 20 anos de história para correr atrás do sonho de uma vida inteira: conhecer Paris. Ah, a cidade das luzes...

Dos olhos, não deixou cair nem ao menos uma lágrima. Dos lábios, soltou um suspiro, daqueles aliviados, mais esperançosos do que assustados. Não olhou para trás e nem ao menos viu sua meia-irmã virando a esquina da rua de baixo, com os cabelos ruivos esvoaçando em meio à brisa de inverno. Nos ombros, a velha mochila, surrada de tantas aventuras em trilhas pelos matagais. De sapato, só o tênis meio desbotado que estava em seus pés, sussurrando ao mundo a cor que um dia havia tido. Nenhum anel nas mãos, nem brincos ou batons. Despiu-se de sua vaidade infantil para ter a certeza de que começaria agora a construir sua identidade. Mulher. Sim, mulher. Não queria mais as roupas cafonas que seu guarda-roupa armazenava ou os velhos colares delicados com que a mãe insistia em lhe presentear.

Seguiu o caminho tortuoso à sua frente, dobrou a esquina e entrou subitamente em um ônibus. Pisou pela última vez aquelas ruas calçadas de paralelepípedos que tanto foram palco das brincadeiras de pique. Embarcou com destino certo: viver intensamente e desbravar novos horizontes, como apenas uma pessoa sozinha pode ser capaz de fazer. Em breve poderia descobrir que estava errada. Muito errada.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Patos na lagoa

Eu poderia escrever este post com dois sentidos diferentes, mas vou preferir o literal. Fui caminhar nesta semana na lagoa do Taquaral, aproveitando um dia nublado e friorento para esticar as pernas e colocar a mente em ordem. Precisava urgentemente de ar puro e de um vento capaz de levar maus pensamentos embora. A tranqulidade que um bom passeio no parque oferece cura qualquer problema, eu digo.

Quem me conhece sabe o quanto sempre gostei de fazer trilhas e me aventurar no meio da mata, observando os detalhes - ou mesmo apenas aproveitando para um exercício mais puxado e sem as artificialidades abomináveis de uma academia. Odeio academia. E também odeio ficar caminhando em volta de pracinhas, andando em círculos como o cão que persegue o próprio rabo. Acho que eu já escrevi isso aqui antes. Não importa. É verdade.




Sorriso discreto no rosto, satisfação estampada, lá fui eu andar os quase três quilômetros de percurso. No meio do caminho normalmente encontro algumas amigas capivaras, mas nesse dia elas estavam tímidas e a única que vi resolveu dar um mergulho quando me aproximei com a câmera. Não tem problema. Os patos fizeram a tarefa de relações públicas. Estavam tão bonitinhos e organizados que não resisti. Clique neles.



O passeio me fez bem. Aliás, sempre faz, não é mesmo? Voltei um pouco renovada pra casa, pronta pra fazer mais milhares de contatos profissionais.

Na verdade, hoje estou precisando novamente desse momento-relaxamento, porque a angústia tem teimado em bater à minha porta. Eu resisto porque gosto de ser positiva e acho que já deixei a tristeza conviver comigo tempo demais quando era mais nova. Gosto de ser uma pessoa alegre e contagiante, com boas vibrações e sempre ideias que me fazem bem. Às vezes dou uma fraquejada, mas quem não é assim?

O importante é lembrar o velho chavão de que cada dia temos a oportunidade de recomeçar e de fazer tudo diferente. Aliás, foi com esse mesmo propósito que me mudei para Campinas: pronta pra começar uma nova vida, tentando mudar os defeitos que vejo em mim e que me irritam. Como é difícil! Parece que, mesmo com 30 anos, já sou uma velha resistente e intolerante. Mas também sou insistente, ah sou. Aos poucos vencerei meus velhos maus hábitos e conseguirei ultrapassar as limitações que insisto em achar que tenho.

Vou ao mercado, perguntar ao rapaz das prateleiras se eles vendem um pouco de autoconfiança por lá. Ah, e se venderem dinheiro também, baratinho, eu compro! Pago um real em uma nota de 50. Vale?